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Sobre um calvinista e o “Deus de Tomás”. Hum…

Leiam a citação abaixo:

“O pensador reformado não pode mais aguentar os pressupostos platônicos, aristotélicos, tomistas, cartesianos, kantianos, ou de qualquer outra espécie espúria que serviram e servem de sustentação para a sua ponderação teórica. O pensador reformado tornou-se epistemologicamente consciente, e exige um novo fundamento que se mostre de acordo com a sua fé. Mas onde podemos encontrar uma filosofia que nos sirva? A filosofia de Tomás de Aquino de fato não nos serve. Trata-se de uma filosofia de síntese, em que a fé cristã é submetida a um desconfortável processo de adaptação ao aristotelismo. Nela, Deus não se distingue inteiramente da sua criação posicionando-se meramente no topo da grande escala dos seres. O elemento transcendente na filosofia tomista não é Deus, mas sim o “Ser”. O deus do tomismo não é o trino Deus auto-suficiente das Escrituras, mas sim a causa-não-causada, mecanicamente ligado ao cosmos e dependente dele. Que fazer?” (GOUVÊA, Ricardo Quadros. Calvinistas também pensam: uma introdução à filosofia reformada. Fides Reformata 1/1, 1996)

Entenderam? O “deus” de Tomás não é o “Deus”, é o “Ser”(!).

Para um artigo cujo título é “Calvinistas também pensam” essa pegou mal, não?! O que acham?!

Os cinco leitores deste blog sabem que não sou o mais indicado para falar de Tomás, ou qualquer tema de filosofia, mas, ao ler esta citação atrevi-me a escrever sobre o pouco que sei do “Deus de Tomás”, e de filosofia e teologia, aproveitando um artigo que escrevi ano passado para a matéria de filosofia da facul.

De início, devo lembrá-los que São Tomás de Aquino expôs as cinco vias para provar a existência de Deus em suas obras Summa Contra Gentiles e Summa Theologiae, as mais importantes obras teológicas da escolástica. Por ser mais sinóptica e metafísica, é mais frequente encontrar comentários sobre a exposição que se encontra na Suma Teológica. Michele Federico Sciacca lembra em Como se comprova a existência de Deus e a Imortalidade da Alma (Mundo Cultural, 1977) que “quando Tomás identificou como a atividade mais importante de sua vida demonstrar a verdade da fé católica e excluir os erros em contrário, ele quis dizer com isso principalmente duas coisas: a prova de que Deus é, e o conceito do que Deus é. Por isso comprova logo no início das duas Sumas a existência de Deus”.

Realmente, São Tomás transpôs para o domínio cristão a filosofia aristotélica, e dela fez uma síntese teológica que elevou a razão humana de tal forma que, com méritos foi proclamado pela Igreja Católica o Doutor por excelência, o “Doutor Comum”, Doctor Communis Ecclesiae, aquele que é importante e reconhecido por todos, e ainda Doctor Angelicus, que é angélico, puro, ponderado, enfim.

Em breve postarei algo sobre a necessidade da demonstração da existência de Deus. Lembro, por enquanto, que o Aquinate ensinava que há verdades que excedem o poder da razão humana, como, por exemplo, de que Deus é uno e trino, mas que outras verdades podem ser acessadas pela razão natural, como a existência de Deus e alguns de seus atributos. Daí ele escrever na Suma Contra os Gentios que “partindo das verdades racionais, é possível o diálogo com os não-cristãos, pois há uma razão natural comum a todos, graças à qual é possível chegar ao conhecimento da verdade, e abrir-se para aquelas verdades que de todo superam o poder da razão humana.” Portanto, Tomás assinala vias para saber que Deus existe, mas a razão é um preambula fidei. Demonstrando algumas verdades elementares e refutando os erros da razão natural dos ateus, fica mais fácil de fazê-los abrirem-se às verdades da fé. Esperar que calvinista entenda isso é querer demais.

Mas, bem, não vou comentar aqui sobre todas as vias, e nem é minha intenção ser exaustivo, visto que a internet está repleta de artigos, livros e posts em blogs excepcionais como o Contra Impugnantes, sobre o tema. Mas, vale lembrar: A estrutura das vias é concludente. Se diferenciam por seus pontos de partida, que são cinco visões distintas do mundo, mas todas elas têm idêntico desenvolvimento, a saber: ponto de partida, constatação de um fato da experiência; primeiro grau, este fato foi necessariamente causado; segundo grau, em uma subordinação essencial de causas, é preciso chegar a uma primeira; término, logo chegamos a uma primeira causa. “A que todos chamam Deus”. Logo, Deus existe.

Os leitores lembram bem da primeira via, giusto?

A verdade verificada pelos sentidos de que “no mundo há movimento”, serve de premissa para Aristóteles estabelecer que o ser se divide em ato e potência e que há um primeiro motor, ato puro (Deus). Na demonstração de Tomás, emerge com força o aspecto metafísico. O movimento a que se refere é a passagem da potência ao ato, que não pode ser efetuada por aquele que se move, porque, se se move, isso significa que é movido e é movido por outro, ou seja, por quem é em ato, sendo portanto capaz de operar a passagem da potência ao ato e não é possível recorrer a uma série infinita de motores e coisas movidas, pois estender o processo ao infinito desloca o problema e não o explica. Portanto, é necessário afirmar a existência de um primeiro motor imutável.

Colocada em termos mais definidos, esta primeira via fica bem mais fácil de entender: em suma, não é possível que β faça γ existir, sem que β exista primeiro. Mesmo que β seja movido por α, id est, esteja em potência em relação a α, é preciso que β esteja em ato em relação a γ para movê-lo para a existência. Por fim, a sequência de movidos e motores (γ, β, α,…) não pode ser infinita. Deve existir um primeiro termo nesta série, que estará em ato em relação a todos os outros termos, e não será movido por nenhum outro.

Sobre a via da causalidade eficiente, Tomás diz o seguinte:

“A segunda via parte da razão de causa eficiente. Encontramos nas realidades sensíveis a existência de uma ordem entre as causas eficientes; mas não se encontra, nem é possível, algo que seja a causa eficiente de si próprio, porque desse modo seria anterior a si próprio: o que é impossível. Ora, tampouco é possível, entre as causas eficientes, continuar até o infinito, porque entre todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é a causa das intermediárias e as intermediárias são a causa da última, sejam elas numerosas ou apenas uma. Por outro lado, supressa a causa, suprime-se também o efeito. Portanto, se não existisse a primeira entre as causas eficientes, não haveria a última nem a intermediária. Mas se tivéssemos de continuar até o infinito na série das causas eficientes, não haveria causa primeira; assim sendo, não haveria efeito último, nem causa eficiente intermediária, o que evidentemente é falso. Logo, é necessário afirmar uma causa eficiente primeira, a que todos chamam Deus.” (I, q. 2, a. 3, rep.)

Notem que a filosofia de Tomás está plenamente independente dos erros da ciência antiga, pois que segundo Reale e Antiseri em sua História da Filosofia (Paulus, 2002), “quando afirma que não importa ‘que as causas intermediárias sejam várias ou uma só’, Tomás dá a entender que (…) sua prova tem um valor metafísico, não físico”, isto significa que ela não está ligada à cosmologia antiga, não se justificando pela causalidade eficiente exercida no nível do universo de esferas concêntricas, como dá a entender o calvinista que escreve que o “deus de Tomás” está mecanicamente ligado ao cosmos. O argumento se baseia em: a) todas as causas eficientes causadas por outras causas eficientes; b) a causa eficiente incausada, que é a causa de todas as outras causas (Deus).

O que esse calvinista entende por “ser” é algo que não faço idéia. O ser é uma noção fundamental na filosofia de Tomás. A Ontologia que Tomás desenvolveu é muito complexa, dificuldade que aumenta pelos vocábulos latinos utilizados para explicá-la. Para se ter uma idéia, muito resumidamente o ens no sentido de conceito (conceptus entis) significa o ser pensado em toda sua generalidade, ou também o ato de ser comum a todos os entes, depois da abstração. O esse é o próprio ato de existir, ente é aquele que exerce o ato de ser. A essentia ou quidditas é um dos significados de ser e corresponde ao “quê” o ente é. Enfim, o ser se confunde com a realidade mesma enquanto ela é pensada (ser de razão) ou enquanto ela é simplesmente (ser real). O ser se diz de maneira analógica e aqui podemos falar da quarta via, que se refere aos graus de perfeição.

“A quarta via se toma dos graus que se encontram nas coisas. Encontra-se nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre, etc. Ora, mais e menos se dizem de coisas diversas conforme elas se aproximam diferentemente daquilo que é em si o máximo. Assim, mais quente é o que mais se aproxima do que é sumamente quente. Existe em grau supremo algo verdadeiro, bom, nobre e consequentemente o ente em grau supremo, pois, como se mostra no livro II da Metafísica, o que é em sumo grau verdadeiro, é ente em sumo grau. Por outro lado, o que se encontra no mais alto grau em determinado gênero é causa de tudo que é desse gênero: assim o fogo, que é quente, no mais alto grau, é causa do calor de todo e qualquer corpo aquecido, como é explicado no mesmo livro. Existe então algo que é, para todos os outros entes, causa de ser, de bondade e de toda a perfeição: nós o chamamos Deus.” (I, q. 2, a. 3, rep.)

Os diversos graus de perfeição de que São Tomás fala, se referem aos transcendentais, que são propriedades fundamentais do ente e que não se limitam a nenhum modo de existir em particular (Por isso transcendem a todos entes). É o ente visto em seus aspectos: verdade, bondade, beleza. Os transcendentais têm este nome porque todo ente os possui. Podemos comprovar, mediante a experiência sensível, que existem coisas mais e menos boas, mais e menos verdadeiras, mais e menos nobres. Não se trata de especular se há uma coisa absoluta como, sei lá, uma planta absoluta, uma pedra absoluta, etc. A pedra e a planta possuem o ser em certa quantidade, em certo grau de recepção do ato de existir, que é pleno em Deus. Portanto, para que o argumento faça sentido, não dá para buscar uma planta ou uma pedra “absolutas”, visto que a planta e a pedra apenas possuem o ser, e o que buscamos é o Ser absoluto, e não a pedra (forma relativa de ser) absoluta, o que seria, no mínimo, um tanto “peculiar”. Até porque se pensarmos que qualquer coisa pode ter o seu absoluto, concluiremos que há, por exemplo, diversos graus de perfeições nos vegetais, e que esses graus relativos o são em comparação com um vegetal absoluto. Se há diversos tipos de mineral, é porque há um mineral absoluto, etc. Pensar assim é absurdo, mas foi justamente o que concluiu o nosso estimado Richard Dawkins, ao tentar “refutar” as vias tomistas, bem o sabemos.

O que Tomás nos convida é, em suma, perguntar se (e aqui aproveito novamente uma citação do Sciacca) “existe um Ser ou Princípio inteligente (pois, de outro modo, não poderia ser princípio de nossa “pessoa”, sujeito inteligente e que quer, e de quantas pessoas foram, são ou serão), transcendente (senão, seria natureza ou cosmo), existente por si (de outro modo seria um ente contingente, ab alio) – isto é: ipsum esse subsistens e, por isso, perfeitíssimo?”

São Tomás buscou demonstrar a existência desse Ser (Ipsum Esse Subsistens) por vias dinâmicas (aristotélicas) e estáticas (platônicas), através de um conhecimento analógico, id est., a partir dos efeitos e do mundo.

Se o indivíduo não entendeu Tomás, não me surpreenderia que não tivesse entendido Platão, Aristóteles, Descartes ou Kant ou qualquer outra filosofia que ele chama de “espúria”. Ora, qualquer uma dessas é melhor que pressuposicionalismo de quinta categoria. Se o indivíduo não entende o essencial da Metafísica, tudo bem, isto não é problema meu, mas não me venha dizer que o “deus de Tomás” não é o Deus verdadeiro.

Por fim, sei sei, o post já está ficando longo e vocês estão enfastiados, mas, não tinha como não citar esse fantástico trecho da História da Filosofia do Reale e do Antiseri (na tradução do Perine, aquela edição da Paulus a que me referi acima):

“A analogia do ser”

“No livro IV da Metafísica, Aristóteles escreve que se identifica o ente nas coisas de modo múltiplo e diverso, mas sempre tendo por referência um ente privilegiado, uma essência particular, não equivocamente, mas como se atribui o “ser sadio” ao ser vivo, à medicina que é sua causa e à cor do rosto que é seu efeito. Da mesma forma ocorre com o ser: são seres a substância e os acidentes, mas a substância de modo particular, principal, primeiro e privilegiado e os acidentes somente enquanto modificações secundárias da substância. Disso tudo, evidencia-se que Aristotéles se interessa pela razão horizontal dos seres entre si e fala da analogia em relação à substância e aos acidentes. Já Tomás de Aquino, embora estabelecendo a posição de que o ser diz respeito aos entes finitos, se interessa mais pela relação entre Deus e o mundo, diferentemente de Aristóteles. Este se move em direção horizontal, Tomás em direção vertical. E, a esse propósito, fala da analogia que, além de esclarecer a relação entre os entes finitos, precisa a relação entre Deus e as criaturas, entre o infinito e o finito.

“À medida que participam do ser de Deus, as criaturas em parte se assemelham a ele, mas em parte não. Não há identidade entre Deus e as criaturas, mas também não há equivocidade, pois sua imagem está refletida no mundo. Assim, há entre Deus e as criaturas uma relação de semelhança e dessemelhança ou, ainda, uma relação de analogia, no sentido de que aquilo que se fala das criaturas pode-se falar de Deus, mas não do mesmo modo nem com a mesma intensidade.

“O fundamento metafísico da analogia está no fato de que causando a causa transmite-se a si mesma, de certo modo. A semelhança não é uma qualidade adicional, mas sim co-essencial à natureza do efeito, do qual nada mais é do que o sinal externo. Quem recorda as implicações do ser e suas propriedades não se surpreenderá diante da observação de que o mundo é sacro, porque sua relação de dependência a Deus está inscrita no seu próprio ser.

“Assim como é bastante vivo o sentido de semelhança, também é muito vivo o sentido de dessemelhança entre criador e criaturas. Estabelece-se aqui o sentido da transcendência de Deus e, portanto, o sentido da teologia negativa. Se é certo que conhecemos alguma coisa de Deus, também é certo que esse nosso conhecimento, tal como é formulado por nós, não reflete a natureza de Deus: “Deus non habet essentiam, quia essentia sua non est aliud quam suum esse”. Se Deus não tem nenhuma essência, porque esta se identifica com o ser, e se todo o nosso conhecimento é tentativa para precisar a sua natureza, então podemos compreender por que a teologia negativa é superior à teologia positiva: nós sabemos mais aquilo que Deus não é do que aquilo que Deus é. Por isso, na opinião de alguns, a analogia está mais próxima da equivocidade do que da univocidade. Fazendo eco a um agudo intérprete do pensamento de Tomás, podemos dizer: “Os entes participam do ser, o que significa que o seu ser não é o Ser. A diferença é a própria participação: os muitos são ‘outros’ do Uno, não algo fora do Uno. Graças à diferença, o ser e os entes estão ao mesmo tempo na mais estreita relação de pertença e na máxima distância: participar é ter junto, mas é ao mesmo tempo não-ser o ato e perfeição de que se participa, justamente porque só se participa” (C. Fabro).”

 


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